Zen Garden Design

Paisagismo - Jardim Japonês

Jardim japonês: Pedras, água, pontes...

Os jardins, de maneira geral, são uma expressão da nossa relação com a natureza. Desde os tempos pré-históricos, essa relação esteve associada à nossa espiritualidade, senso estético e desenvolvimento intelectual. Tal consciência do ser humano acerca de sua relação com a natureza levou à criação de jardins na sua forma mais elaborada, onde diversos elementos são combinados, refletindo a harmonia do universo.

Nascidos nos templos budistas, os jardins japoneses ocultam em detalhe um duplo sentido. Nada está ali por acaso. Tudo tem a sua razão de ser, voltada quase sempre para a elevação do espírito. Já 600 a.C., era comum no Japão a adoração das velhas árvores, rios e pedras. Aos quinhentos anos de nossa era, junto com os princípios de paz e harmonia da religião budista, esses jardins japoneses receberam um novo impulso em seu desenvolvimento.

Na concepção de um jardim japonês devemos observar a natureza e o seu significado. Por exemplo: a água que nasce nas montanhas, forma os rios e corre para o mar, elucidando a irreversibilidade das coisas. As pedras devem ser virgens, colhidas em leitos de rios ou diretamente da terra, nunca antes utilizadas pelo homem, sendo que sua presença no jardim deve sugerir que a própria natureza as colocou ali. A quantidade deve ser preferencialmente ímpar, como 3, 5 ou 7, considerados os números da felicidade, que representam a harmonia do karma.

A água, elemento fundamental, além de representar e conferir a vida, a água espelha a imagem e induz o homem a enxergar a si mesmo. É símbolo da purificação e seu gorgolejar suave, correndo entre as pedras, convida à reflexão. Em jardins maiores, a presença de pequenas pontes sugere o nosso caminho espiritual pelo mundo, de uma margem à outra, rumo a outras esferas.

Em certos jardins, podemos encontrar pequenos monjolos shishi odoshi, cuja utilização remonta aos templos budistas, onde seu barulho intermitente ajudava a manter longe os animais, emprestando uma aura de maior misticismo ao lugar sagrado.

Foi, no entanto, pela marcante influência do Zen que se elaboraram os famosos jardins secos de rochas, os kare-san-sui, onde a água era representada apenas por pedrinhas e seixos. Caminhos sinuosos de pedras ou cascalho, permitem que percorramos o jardim, desfrutando de sua beleza e descobrindo novos ângulos a cada passo, alongando a caminhada, possibilitando mais tempo à contemplação.

Lanternas de pedra, além de iluminar o ambiente, sugerem a luz que guia as pessoas nas trevas. É o espírito bom e iluminado que afasta a escuridão.

Também certas plantas têm um significado especial, notadamente o bambu, que se dobra ao vento mas não quebra, sugerindo ao homem a adaptação a situações adversas sem se deixar vencer. O seu crescimento sem curvas simboliza a retidão de princípios e integridade de caráter. O som do vento em suas folhas e os raios do sol por elas filtrados tranquilizam e elevam o espírito.

Nesse espaço de gestual contido, a concepção do jardim deve definir três áreas: a recepção, o corredor e a parte interna do jardim. Na recepção, mesmo que num pequeno espaço, devem estar representados os principais membros da família, devidamente protegidos. Flores perfumadas como magnólias e pitósporos simbolizam o irashai ("Seja bem vindo"), flores perfumadas como as magnólias e os pitósporos, que além de saudar os visitantes que chegam à casa, afastam os maus espíritos. Cerimoniosamente, oferecem as boas vindas o matsu (pinheiro japonês), representando o pai, as azaléias, simbolizando a mãe; e touceiras de bambu para os filhos.

Não são fortes o suficiente os maus espíritos para vencer o poder da arália ou fátsia, que pode atingir mais de um metro; nem da íris, cujas folhas lembram pequenas espadas, apaziguadas por delicadas flores. Também para tirar todos os males do caminho é recomendado plantar nandinas, que hoje, se sabe, produzem uma substância que evita a proliferação de bactérias.

Depois dessa acolhida, os bons amigos – e também os bons espíritos – podem entrar num corredor familiar e repleto de misticismo. Ele é vivo, erguido com singelos podocarpos, que se assemelham a pinheirinhos, e com delicadas heras que ladeiam um caminho.

Pois não é fácil transpor essa trilha. Ela é sinuosa, porque só os maus espíritos transitam em linha reta, os bons preferem buscar nas curvas o seu rumo. E o chão é forrado com pedras irregulares, que dificultam o caminhar das pessoas, levando-as a apreciar a vegetação e as rochas. Essa atmosfera leva o indivíduo à contemplação e meditação, à procura da sua verdadeira natureza.

Mais adiante, uma pedra côncava tsukubai e uma bica de água corrente anunciam a proximidade da parte interna do jardim e, cortesmente, convidam os visitantes a molhar suas mãos, demonstrando a pureza da sua alma. Porque nos cursos d’água, diz o xintoismo, os maus espíritos não sobrevivem. Aguçar o tato, o olfato, a visão e a audição. Essa é a missão de um jardim, onde se alternam, com perfeição, áreas sombreadas e ensolaradas, remetendo aos tempos doces e amargos da existência humana.

O chão, forrado com grama japonesa, é sinestésico, graças às ondulações que despertam as sensações. Todo esse clima contribui para dissipar as tensões cotidianas, a fim de que se usufrua melhor da companhia dos familiares e amigos.

Recentemente, alguns paisagistas contemporâneos têm se limitado a combinar espécies de forma harmoniosa, apenas repetindo as paisagens da natureza. Os tradicionais, todavia, ainda acompanham a simbologia, dando a cada elemento um profundo significado. Por esta razão, é bom que se repitam o matsu (pai), as azaléias (mãe) e os bambus (filhos) com formas trabalhadas que exibem podas cuidadosas e galhos modelados em posição de destaque, sinal de reverência. Aqui, uma pedra grande e arredondada e uma lanterna dão base e luz à família.

Os parentes próximos e os amigos da família são lembrados com plantas de muitos talos, como Rhapis exelsa. Já os antepassados são simbolizados em troncos de árvores fincados n’água, revelando que já cumpriram o fluxo da vida. Esse curso pode formar um tanque com carpas que destroem os espíritos perversos, diz o shintô. Todo jardim tem um mestre, aqui representado pelo kaizuka, um pinheiro silvestre. Para garantir a fartura, a ardísia, o azevinho e o ginko.

Na união equilibrada de plantas, rochas, terra, luz, água, madeira e seres humanos, as intersecções remetem ao infinito e eterno poder, mantendo sempre a mesma aparência serena, como se os elementos estivessem ligados desde o princípio dos tempos, concentrando todas as energias da natureza. Fazemos parte de um todo e, em harmonia, vivemos juntos esta grande vida.

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